
... “Ele olha o relógio como se pudesse desvendar os medos que sua mente teimava em mostrar-lhe; O suor de seu rosto denunciava sua aflição, sua ansiedade; era a fisionomia de quem perderá a corrida contra o tempo – corrida contra o tempo, sim, era essa a definição de sua vida, uma eterna busca pelos cinco minutos além da humanidade, além dos compromissos, além dos atrasos. Tentara em vão buscar esse ”adiantamento”, e agora, o relógio, o “seu” relógio, um relógio de pulso vagabundo que ele comprara numa barraquinha de camelô no centro do rio de janeiro vinha cobrar-lhe o preço de seu trabalho. Enfim, fora ele que o conduzira, por quase uma década, sempre a frente da humanidade. Acordara ele sempre cinco minutos antes que os outros, possibilitara sempre pegar o táxi que, se perdesse, mudaria sua vida; sempre o levara a viagens que duravam cinco minutos a mais do que para qualquer outro mortal. Agora o seu simplório relógio o cobrava, o seu companheiro, o relógio que ele sempre cuidara, o cobrava – O preço, o preço era alto, o mais alto, que alguém que vivesse sempre cinco minutos além da humanidade, podia pagar.
Viver sua vida em 60 segundos, um minuto, “um absurdo” pensava, como viver uma vida em 60 segundos?
O relógio era inflexível, apenas 60 segundos, nem um milésimo a mais ou a menos.
“corra, corra” bradava o relógio, já passara 10 segundos.
“e agora? O que faço?”
Doze segundos.
“Tá bom, tá bom, deixe-me ver, nasci, claro tenho que nascer! Agora a infância, ah! Jogar bola, correr atrás das meninas, colar chicletes em seus cabelos, ah! Brincar, me sujar e levar bronca por não querer tomar banho,...”
Vinte segundos.
“Calma! Não cheguei nem na adolescência, deixe-me ter minhas dúvidas, meus ídolos e minhas primeiras desilusões, deixe-me sentir a ansiedade do primeiro beijo, da primeira namorada, ah! deixe-me apaixonar, sonhar, pensar que posso mudar o mundo.”
Trinta segundos.
“Nossa! Que pressa, não me deixa nem sentir novamente o sabor de passar no primeiro vestibular, ah! que alegria, só ofuscada pela tristeza de perder o primeiro emprego, que nada, consegui outro muito melhor, por sinal foi ai que encontrei você!”
45 segundos.
“Tá legal, Maria Eduarda, mulher maravilhosa, sabia tudo de tudo; um poço de sapiência, que somente não era mais profundo que seu ciúme.”
50 segundos.
“Caramba, será que não vai dar tempo de ter meus filhos, será que minha mãe não terá seus netinhos, o Rafael e a Ana Luiza, uns amores, um tanto quanto sapecas, Ah! Mas uns amores.”
59 segundos.
“NÃO, NÃO, POR FAVOR, ME DÊ MAIS CINCO MINUTOS!!!!!!!!!! Bradou.
A resposta foi um enorme silêncio, o vazio, nem frio nem quente, nem fome nem saciedade. Somente o silêncio, ele pensou:
“Será isso a morte, será o silêncio, será não poder pensar, não poder lembrar”.
Mas eu lembro, lembro do André, amigo da adolescência, lembro da Paula, namoradinha que tive ainda menino, lembro dos primos, lembro de todas as minhas brigas comigo mesmo, lembro dos porres, das baladas, das noites que virei acordado porque tinha prova na faculdade – e já tava ferrado; lembro da tia do cafezinho lá da empresa em São Paulo – ela era manca e a galera a soava, sempre me senti mal, não por soar dela, mas por nunca dizer aos meus colegas como eu os achava uns babacas por fazerem aquilo; lembro dos passeios na fazendo do meu avô, um cara meio grosso, mas com um coração muito doce; EU LEMBRO, SIM EU LEMBRO, SIM EU LEMBRO, SIM EU LEMBRO ...
TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM TIMTIM.
Era o relógio, o velho relógio me despertando cinco minutos mais cedo que toda a humanida. Não, hoje não, desligo o relógio e vou dormir cinco minutos a mais que toda a humanidade...
Um comentário:
Legal tu teres colocado aqui um dos teus melhores textos. Será virão outros?
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